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A filha da vizinha

May 31, 2017

 

Era apenas uma conversa entre vizinhas. Ana quis ser prestativa. Bem numa sexta-feira, à tarde.

 

— Vai assistir à peça. Eu fico com a Clara para você.

 

O cuidado seria simples, se Clara não tivesse uma condição especial: era alérgica a chips. Mas não era a batata, nem intolerância alimentar. Ela se dava bem com glúten e podia até tomar um porre de iogurte. O perigo era ficar perto de chip de celular, televisão, computador.

 

Juninho nem pôde opinar. Parou o jogo na metade e foi chorando até o quintal. Tentou se jogar no buraco, onde Ana enterrou os celulares, dentro de uma caixa de papelão.

 

— Esse celular é a minha vida, mãe. Aí estão meus amigos.

— Acho que o @deixaqueeuchuto e @artilheiríssimo vão entender.

 

Clara chegou com fome e foi logo escalando a jabuticabeira. Quatro horas de Pilates por semana e corrida todos os dias não ajudaram Ana a resgatar a menina. Quando alcançou o primeiro galho chegou a câimbra.

 

Juninho cavocava a terra com as unhas a procura da caixa de papelão. Ficou apavorado com as minhocas enroladas entre seus dedos.

— Tira isso daqui, mãe. E chama alguém para dedetizar este lugar.

 

Luís Alberto chegou mais cedo do trabalho e foi abordado no portão.

 

— Passa pra cá seu celular.

— Que isso? Eu não fiz nada.

— Levanta os braços, preciso te revistar.

— Calma, juro. Foi só uma brincadeirinha no whattsapp, amor.

— Passa o kindle, o ipad e o.... chocolate.

— TPM de novo?

— A filha da vizinha está aqui.

— A esquisita que só brinca?

— Não ouse contrabandear qualquer eletrônico.

— No banheiro pode?

 — Luís, são só algumas horas.

— Mas é final de campeonato.

— Hoje?

— Paulista, terceira divisão.

— A menina pode ter um piripaque.

 

— Toma, leia as notícias.

 

Luís seguiu para a sala com o jornal debaixo do braço e o deixou na mesa.

Clara pulava corda com o fio do playstation.

 

Que tal uma música? — sugeriu Ana se jogando no sofá com os dedos dos pés esticados pela segunda câimbra.

 

Qual você prefere? itunes ou spotify? Esqueceu, mãe? — apontando com as sobrancelhas para a menina que começou a fazer dobraduras com o jornal.

 

— Pega os discos no quartinho, Luís.

 

Luís voltou com um violão e começou a tocar Pela luz dos olhos teus.

 

— Lembra dessa, Ana?

— Foi quando nos conhecemos.

 

Ana e Luís dançavam no meio da sala, sem música.

— Quanto tempo a gente não dança assim, Luís?

 

Luís enrolou os braços bem apertados no pescoço de Ana. E com dificuldade conseguiu ver as horas no relógio de pulso e pensou. Deve estar começando o segundo tempo.

 

Juninho e Clara brincavam de caça ao tesouro no quintal.

Juninho usava um chapéu de pirata, feito de jornal, e Clara colocava minhocas no baú de dobradura.

 

— Isso, Clara. Cava mais. O tesouro está numa caixa de papelão.

 

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