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Por onde anda a infância?

May 5, 2017

 

 

O rastelo bem que tentou animar a grama. Mas ela sentia saudade daqueles pezinhos de veludo massageando suas folhas em ritmo de cavalaria.

 

Não havia consolo ao jacarandá, que um dia teve esperança de resgatarem a bolinha de gude em seus galhos, perdida há muitas décadas. Nem uma pipa surgia para acariciar sua copa. Suspirava ao lembrar das noites de lua cintilante, quando abrigava conversas e histórias à beira da fogueira. Suas raízes curiosas não resistiam aos causos assustadores e ganhavam a superfície. Generosas, serviam de banquetas aos mais velhos e banhavam-se ao brilho do luar. Sim, a lua reluzia quando tinha plateia.

 

A manga verde se atirou lá do alto. Nem sequer esperou ficar rosa.

Para que ser madura? O tempo não traz sabedoria.

           

Antigamente, gérbera alçava voo como os dentes-de-leão e o colorido do quintal fazia sonhar. A imaginação que vinha dos pequenos vibrava nossas almas.

Flor virava helicóptero. Galho e olho-de-boi saiam em alta velocidade.

E quando aparecia um mais atrevido que levava para um passeio além da cerca?

Na correnteza, as folhas secas embarcavam no estrondo da cachoeira. 

E ao longe um grito perdido. Chega de arte, menino!

Mas quem vive sem arte?

 

Agora, quem não tem asas, cria musgo. Com sorte, os polens dão um passeio quando aparece alguma abelha por aqui. Andam tão sumidas.

 

No terreiro, a terra batida de tão abatida não levanta poeira. Também, não há brincadeira. 

 

Eles agora vivem dentro de casa com seus celulares, computadores e televisores impostores, que se utilizam de uma luz falsa, com brilho hipnotizante para tirá-los de nós - discursava a borboleta agitada.

 

As gotas de chuva tamborilavam na cumbuca esquecida ao pé do seixo.  Em outros tempos essas poças de lama não teriam sossego.

O perfume de terra molhada invadia o pequeno nariz do menino sentado na cadeira de balanço, no canto da varanda. Os dedos nervosos atacavam as teclas do celular. O som alto do aparelho silenciava o último bem-te-vi otimista.

 

De repente, como quem sente cheiro de bolo saindo do forno, o moleque largou o celular na cadeira e correu em direção a grama.

 

Frederico, onde você vai descalço?  É perigoso, volta aqui.

 

A babosa não sabia mais o que era roçar numa pele quentinha para curar ferida.

Quem se machuca com brinquedos de plástico?

Tudo tão frio, sem tato, nem contato.

 

O tiê chegou com boas novas.

 

Existe um lugar, lá pras bandas do penhasco, que não pega internet.  

E vejam só, existe uma menina que brinca. Brinca descalça, na chuva, trepa em árvore e dá até abraço. A menina é conhecida nos quatro cantos do Vale do Paraíba.

Será lenda ou verdade verdadeira?

Só indo lá para conferir.

 

Sabiá se animou e tentava convencer a libélula, que buscava coragem para longa travessia, mas também sentia pena dos que lá ficariam.

 

O quintal não uma é uma selva. Crescemos juntos, unidos por várias gerações. Fugir não vai resolver o problema. Uma só menina vai dar conta de tanta natureza?

 

O trovão explodiu em dúvida. E os raios contrariados acabaram com a energia da casa.

O sol envergonhado foi embora mais cedo.

 

Dois homens foram buscar um tal gerador.

As crianças choravam no escuro.

 

Os vaga-lumes sinalizaram o quartinho onde estava o lampião. Mas a lanterna de um celular roubou a cena.

 

A tempestade resultou em xingamento.

Tempo maldito. O que viemos fazer no meio do mato?

 

A estrela recém chegada palpitou. Não acho que a violência seja o caminho.

O trovão silenciou.

 

Eles sentem nossa falta, mas precisam se dar conta disso.

Quando as roupas não secam, quem eles chamam?

Está muito abafado, quem eles pedem?

O negócio é a gente se unir em um protesto.

 

As mariposas dançavam em roda quando gritaram.

Vamos entrar em greve. Greve geral!

A luz voltou nesse instante.

 

E enquanto lá fora a paralisação era planejada, dentro da casa, todos se reuniam em volta do computador para conferir um vídeo do eclipse lunar no hemisfério norte.

 

 

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